Lições de história e esperança contadas em peça teatral

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13 mai 2010

Em março de 2000, a mala de uma criança de Auschwitz chegou a um pequeno centro de Holocausto no Japão. A curiosidade pela identidade desta criança resultou na descoberta de uma história que virou livro, depois uma peça teatral e ainda um documentário. Após sucesso em 2006, a montagem Hana´s Suitcase retorna aos palcos de Toronto.

O diretor de Hana´s Suitase Allen MacInnis. Crédito: Eric Major.

O diretor de Hana´s Suitase Allen MacInnis. Crédito: Eric Major.

Todas as tardes, grupos de crianças vindos de diferentes escolas da Grande Toronto lotam os 460 lugares da principal sala do Lorraine Kimsa Theatre for Young People, na Front Street, perto da Sherbourne. Ao contrário do que se pode imaginar, esses garotos e garotas, com média de 10 anos de idade, não foram ao teatro para ver um conto de fadas ou uma história de super heróis, mas a versão teatral de um livro baseado em fatos reais, sobre uma garota chamada Hana e seu destino nas mãos dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

A peça Hana´s Suitcase, baseada em livro de Karen Levine e adaptada para o teatro por Emil Sher, conta uma história que começa em Tóquio, no Japão, logo após a chegada de uma mala no Children´s Holocaust Centre. A relíquia, vinda do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, continha em um de seus lados um nome, Hana Brady, uma data de nascimento e uma palavra em alemão Waisenkind (órfã). Como apenas sabiam o nome da dona da mala e que ela era uma órfã, as crianças do Centro e sua curadora decidem embarcar em uma jornada para descobrir a história de Hana.

A paciência e determinação da curadora japonesa a levam até Praga, na República Tcheca, onde ela  eventualmente descobre que Hana, de 13 anos de idade, foi assassinada na câmara de gás daquele campo de concentração, e que tinha um irmão mais velho, George, que também esteve em Auschwitz, mas sobreviveu e reside em Toronto. Ela entra em contato com o irmão de Hana, que consequentemente relata os momentos de alegria e tragédia de sua irmã e família.

Conversa com o diretor

A história da jovem garota é hoje usada para expor o drama de mais de um milhão e meio de histórias similares que permanecem em segredo. Essa história tão verdadeira e ao mesmo tempo tão improvável fascinou o diretor da peça, Allen MacInnis, “Como é fascinante que crianças no Japão tenham se importado tanto com uma menina cuja mala de Auschwitz era tudo o que restava da sua identidade”, conta Allen em entrevista ao OiToronto, “Eu também fiquei impressionado ao perceber como a história de Hana derrota novamente os nazistas toda vez que é contada. Apesar de terem tentando eliminá-la da face da Terra, a história de Hana ganhou vida outra vez, e para o bem.” Allen diz que ficou comovido com o fato de Hana, que uma vez sonhou ser professora, agora, mais de sessenta anos após sua morte, estar ensinando as crianças ao redor do mundo sobre o Holocausto.

O diretor ouviu falar sobre a maleta de Hana pela primeira vez em 2004, através de um funcionário do teatro. “Pouco tempo depois, recebi um exemplar do livro e o li durante um fim de semana. Então cheguei ao escritório na manhã de segunda-feira e disse que tínhamos que tentar transformá-lo em uma peça de teatro.” Naquele mesmo dia, segundo o diretor, Emil Sher ligou para ele dizendo que havia acabado de ler um livro que queria adaptar para o teatro e era justamente Hana’s Suitcase.

Allen diz que mesmo a peça sendo adaptação de um livro, eles permaneceram fiéis à história real e ao espírito do original, “mas como uma peça, nós escolhemos uma estrutura diferente do livro. O livro tece maravilhosamente a história de Hana no passado e no presente. Na peça, a primeira parte é uma história de detetive, e a segunda, a revelação do que Hana e seu irmão George vivenciaram durante o Holocausto”.

Como o irmão de Hana vive em Toronto, Allen pôde conhecê-lo pessoalmente. Segundo o diretor, “George é um homem notável de grande humildade, dignidade e um grande senso de humor. Ele é cheio de vida apesar da tristeza que carrega com ele. Eu me lembro como ele nos pediu para assegurar que a peça sobre sua irmã deixasse nas crianças um sentimento de esperança”.

Esta é a segunda vez que Hana´s Suitcase é apresentada pelo Lorraine Theatre for Young People, tendo retornado por demanda popular, e estará em cartaz até o dia 21 de maio. Para Allen, o sucesso da montagem deve-se à capacidade de compaixão das crianças, “assim como o fato de terem um forte senso do certo e do errado. Quando uma história como esta surge, às quais muitas crianças podem se relacionar, a história se torna uma força poderosa, capaz de mudá-las. Você sente a mesma coisa quando assiste à peça.” – diz o diretor. Allen e elenco tentam contar a história de uma maneira que ensine uma verdade aterradora às crianças, mas sem amedrontá-las.

Para Allen, a grande mensagem da peça está em um poema escrito por um dos estudantes japoneses, “As crianças podem fazer a diferença na construção da paz no mundo de forma que o Holocausto nunca irá acontecer novamente”.

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