O voo de Laura Finocchiaro
16 jul 2010 / 2 Comentários
A gaúcha radicada em São Paulo chega a Toronto para apresentar, amanhã, o pocket show chamado “Avoar”, criado especialmente para o Expressions of Brazil, no Harbourfront Centre. O show inclui o melhor de quase 30 anos de carreira de Laura Finnochiaro e também composições inéditas. Em entrevista ao OiToronto, a musa do underground fala da visita ao Canadá, adianta o set list do show em Toronto e relembra momentos marcantes de uma carreira, construída como ela mesma diz, “tijolo por tijolo”, sem “jabaculê”.

Ela garante estar no melhor momento de sua carreira, e olha que são quase 30 anos! Tempo em que Laura Finocchiaro lançou cinco CDs (o sexto está a caminho), produziu trilhas para cinema, teatro e TV, abraçou a causa do respeito à diversidade sexual, participou do Rock in Rio II, cantou para um milhão de pessoas e refinou composições, melodias e timbres em busca de uma música “consciente, estudada e inteligente”.
Atualmente anda “bombando” nas pistas de dança mundo afora e também na internet com o single “Avoar”, que inspirou o show que ela vai apresentar aqui em Toronto. No refrão (confira o single abaixo), ela canta “Quem tem asa não avoa, quem não tem quer avoar”. Ainda bem que nem sempre a arte imita a vida. Mulher intensa e que procura ouvir a voz do coração, Laura Finocchiaro sabe que tem asas e sim, quer voar longe. O seu próximo pouso já tem dia e hora marcados: sábado, dia 17 de julho, no Harbourfront Centre, às 19h. E ela avisa que aqui vai estrear o seu novo violão, um Midi (“que me permite tocar com timbres eletrônicos”) fabricado no Canadá.
Ainda em São Paulo, onde mora, ela gentilmente nos concedeu esta entrevista por e-mail.
Julieta Jacob – Sua carreira é bastante diversa e versátil. Inclui desde o título de roqueira “musa do underground” até produção de trilha para programa infantil, reality shows e ainda o lançamento de um CD de mantras. Como você se define enquanto estilo musical e profissional de música?
Laura Finocchiaro – Na verdade, meu som tem meu próprio estilo, desde que iniciei minha carreira solo em 1983. Como estudo música desde os nove anos de idade, acabei recebendo muitas influências – da MPB ao Rock´n Roll, da Jovem Guarda à Bossa Nova, do Samba Rock à Música Africana e, depois dos anos 80, quando iniciei meu “namoro” com a tecnologia da música, a “house music” e a música pop africana também passaram a me influenciar. Daí sim, meu som virou um grande mix da sonoridade acústica com a eletrônica, sem preconceito, sem realmente me rotular em nenhum gênero, apenas com o desejo de criar algo novo, criando meu próprio estilo, mas sempre perseguindo o caminho de uma música consciente, estudada, inteligente. Ao longo desses anos, sigo estudando música e tecnologia de áudio para poder refinar minhas composições, harmonias, melodias, timbres, ritmos e grooves ampliando meu espectro sonoro.
JJ – Como é atuar em áreas tão diferentes?
LF – Talvez mesmo por essa paixão desenfreada é que consigo atuar em muitas áreas da música e com certeza também devido à necessidade de sobrevivência, é claro! Sendo assim, desde os anos 80, além de atuar na área do show business como cantora, compositora e guitarrista, passei também a produzir trilhas sonoras para cinema, teatro, televisão, vídeos, publicidade e documentários. Depois veio o convite oficial do SBT, em 2001, para assinar a produção musical do primeiro reality show da TV Brasileira, a “Casa dos Artistas” e, de lá para cá, nunca mais parei de produzir para esse gênero de programa. Já assinei 12 programas e atualmente estou contratada pela TV Record para produzir o reality show “A Fazenda”, que já vai para a terceira edição. No meio disso tudo, assinei a direção musical da primeira novela da esposa de Silvio Santos, Iris Abravanel (SBT/2008).
JJ – E como surgiu a ideia de produzir o CD de mantras (Tashi Delê Mantras de Roda), lançado em 2001?
LF – O CD de mantras eu produzi porque sempre fui ligada à espiritualidade, faço Yoga e alimentação natural há muito tempo (desde os 14 anos). Tenho uma ligação muito forte com a natureza e considero vital essa harmonia entre a mente, o corpo e o espírito. Foi por esse engajamento que também me tornei uma “arte-educadora” e por vários anos ministrei oficinas de música, além de cantar e tocar em hospitais e asilos.
JJ – Ainda falta o programa infantil…
LF – A TV Colosso (TV Globo), foi um convite muito bacana que recebi em 2003 do diretor do programa e acabou dando certo esta coisa de criar música para crianças.
JJ – Além de “musa do underground”, você é também “musa GLS”…
LF – É que a partir dos anos 90 eu passei a falar da diversidade sexual e da necessidade do respeito às diferenças publicamente e comecei a ajudar o movimento. Cantei por amor em quase todas as “Paradas” que o movimento fez aqui em São Paulo. Ajudei a fortalecer a causa e me sinto muito orgulhosa por isso! Acabou que criei esse leque amplo em minha carreira e por isso não é à toa que batizei meu mais recente CD de “Lauras”. É por causa desta história inteira, de quase 30 anos na carreira musical, trilhando com paixão ininterruptamente, sempre buscando “ouvir a voz que vem do coração”, levando com muito comprometimento com a verdade e a ética.
JJ – Em 1990 você se apresentou no Rock in Rio II. Teria sido o show de maior público da sua carreira?
LF – Acredita que foi um fã que me inscreveu no festival que selecionaria artistas de todo Brasil para abrir os shows de Prince e Santana no evento? Então para mim foi uma surpresa e um presente, pois como resultado tive uma grande projeção artística em todo o país e fora do Brasil também. Na verdade foi a maior mídia que já tive. De Globo a MTV, passando por Folha de São Paulo e revistas especializadas, por pelo menos três meses sem parar! Foi uma exposição e tanto, que me colocou definitivamente no cenário da nova música brasileira. Como público, no local, até que não foi tanto. Abri os shows de Prince, Santana e Alceu Valença e o horário era no início da noite. Sendo assim, devia ter umas 50.000 pessoas. A grande exposição foi depois, quando a Globo transmitiu para todo Brasil e para fora do país um trecho de meu show! Mas meu maior público foi na “Parada Gay”, quando cheguei a cantar para um milhão de pessoas! Daí sim, senti meu coração bater!
JJ – Tem alguma novidade prevista a curto prazo?
LF – Estou vivendo o melhor período de minha vida, com certeza! Muitas novidades e muita coisa bacana rolando. É um prazer você ver que o amadurecimento e a persistência fazem a diferença numa carreira artística, pois você se torna real no que faz e é assim que me sinto! Ou seja, minha carreira é fruto de minha batalha, construída “tijolo por tijolo”, sem “jabaculê” de ninguém, de nenhuma gravadora ou empresário. Sempre detestei esse tipo de atitude para se manter na carreira e hoje posso provar que é possível fazer diferente, por mais difícil que seja, mas vale a pena! Hoje têm alguns singles rolando com minha voz por vários países da Europa e em especial um que se chama “Avoar”, que produzi ao lado de um Dj de Tech House, chamado Tikos Groove. Este single foi vendido para vários selos internacionais, em especial o do top DJ Roger Sanchez. O single “bomba” nas pistas (de Ibiza a São Paulo) e também na internet!
JJ – Atualmente você está trabalhando em algum CD novo?
LF – Devido ao sucesso do single, meu próximo CD será na linha da “dance music”, mas seguindo o caminho do mix entre o acústico e o eletrônico, sem perder minha cara. Já iniciei a pré-produção deste novo trabalho e a sonoridade do que será pode ser conferida no show que farei em Toronto, por isto, batizei o show de “Avoar”. Além disso, seguirei produzindo para a TV Record, pois tenho um contrato de três anos com eles para exclusivamente cuidar do reality show “A Fazenda”, onde cuido da seleção e edição da sonoplastia e ainda sou Dj nas festas que acontecem no programa!
JJ – Já que você citou o show que vai fazer em Toronto, você já esteve no Canadá?
LF – Esta é a primeira vez que vou ao Canadá. Estou muito curiosa e ao mesmo tempo feliz por isso! O show é o segundo internacional que faço. O primeiro foi em Buenos Aires, em 2004. Mas com esta penetração e importância, posso dizer que é o primeiro, pois está engajado em um festival muito bacana (o Expressions of Brazil), que promove a cultura brasileira.
JJ – Qual a sua expectativa para participar desse evento brasileiro num dos lugares mais visitados de Toronto durante o verão?
LF – Minha expectativa é máxima. Dei tudo de mim, desde o dia em que fui oficialmente convidada, em março deste ano. Como o convite só dava suporte para mim, tive de criar este novo show, onde faço tudo sozinha. Foi um grande desafio, mas estou orgulhosa e feliz por ter conseguido realizar e mais ainda, por poder apresentar a um público de primeiro mundo, que tem ouvidos atentos e parâmetros para entender um trabalho ousado, diferenciado, provocativo e inovador como é o meu.
JJ – Dá pra adiantar um pouco como vai ser o seu show no Expressions of Brazil?
LF – “Avoar” é o nome deste pocket show, criado especialmente para este evento. Criei e pré-produzi novas bases eletrônicas, que sustentam as harmonias e melodias que produzo com minha voz, guitarra, violão e cavaquinho. Para compor o repertório, busquei em meu baú de shows já realizados as peças mais marcantes ao longo de minha carreira, além de criar algumas novas, especialmente para o show. Quero mostrar meus lados “acústico” e “eletrônico” e como resultado sonoro, mixar a “house music” com a “brasilidade” sonora, além da “pegada” do rock, que nunca deixo de lado. O show vai ter também um momento “meigo”, onde mostro meu lado romântico e passo por vários ritmos, dando ênfase sempre à MPB e ao cancioneiro brasileiro.
O set list é o seguinte:
1. Zen Zin Zoazou – Um poutporri que inclui “Avoar”, “Zenzinzoazou” e a tradicional cantiga “A Rosa Vermelha” (gravei em 2003, no CD “Oi”);
2. Carinhoso – Chorinho clássico de Pixinguinha e João de Barro (cantei no Rock In Rio II, em 1991);
3. Dinheiro – Um rock básico que faz parte de meu repertório, composto por mim e minha parceira mais importante, Leca Machado. Foi gravado no CD “Ecoglitter” (1998) e com uma roupagem nova no CD Lauras (2008). Para este show em Toronto, ganha uma cara 100% nova!
4. A time for Love – Um poutporri onde misturo “Je T’aime moi non plus” de Serge Gainsbourg com “Amada Amante” de Roberto e Erasmo Carlos”;
5. Frases – de Jorge Benjor, que gravei no CD Lauras;
6. Menina Linda – Uma versão para a canção dos Beatles, feita na jovem guarda, por Renato e seus Blue Caps. Canto desde os anos 90 este tema em meus shows. É um momento romântico e divertido;
7. Hino à Diversidade – Este tema foi composto por mim e o poeta maldito Glauco Mattoso, para celebração da quinta Parada do Orgulho Gay em São Paulo, quando cantei ao lado de Edson Cordeiro e Elza Soares para um público estimado em 500 mil pessoas!
8. Ta-hi – Uma marcha de Carnaval dos anos 30, composta por Joubert de Carvalho e sucesso na voz de Carmem Miranda, devidamente pervertida por mim. É uma versão inédita, que criei especialmente para o Expressions of Brazil, pois misturo “Aquarela Brasileira” de Ary Barroso, criando assim um “momento homenagem” ao nosso país, tão injusto e saqueado.
9. Conexão – Uma composição minha para falar do “Jogo do Bicho” – prática proibida, porém realizada no Brasil. Gravei em meu CD Lauras, mas aqui faço uma versão remixada e envenenada, quando toco meu cavaquinho;
10. Juízo Final – Chorinho clássico de Nelson Cavaquinho e 100% envenenado por mim, com uma cara de house music. Criei especialmente para o evento também!
11. Merci Bon Dieu – Uma cantiga folclórica da Guiana Francesa, Martinica, que cantei no Rock In Rio II e que foi devidamente repaginada. Canto para encerrar o show, homenageando o Haiti e a África.
Confira o single “Avoar”:
Serviço
- Show de Laura Finocchiaro
- 17 de julho, às 19h00
- Harbourfront Centre
- entrada franca
Além de música, o Expressions of Brazil, que começa hoje, sexta-feira,vai ter ainda oficinas, exibição de filmes, exposições de artes plásticas e muito mais. Tudo de graça. Confira a programação completa aqui.



A Laura eh um show de simpatia. Adorei conhece-lá :)
Amados e amadas de Toronto:
Valeu muito tudo isto! Foi um grande voo relamente!
Cantar para uma platéia tão seleta, diversa e repleta foi um prazer e representar o Brasil com minha música mais ainda!
Agora aqui do Brasil, do aconchego de meu lar, relembro todos os momentos divertidos, prazerosos e amorosos que vivi nesta terra tão cheia de dignidade!
Deixo muitos beijos de sorte e agradeço o carinho de tod@s!
Laura Finocchiaro